Fundação MT

Posicionamento técnico da Fundação MT contrário a portaria N° 264 da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (ADAPAR), art. 4°, art. 5°, art. 6°, de 17 de setembro de 2018 que permite o cultivo extemporâneo de soja após a data de 31 de dezembro no e

Ao Diretor Presidente da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná – ADAPAR Gabinete do Diretor Presidente Rua dos Funcionários, n° 1559, térreo, bairro Cabral CEP: 80.035-050 – Curitiba - PR

A Fundação MT tem na sua missão desenvolver tecnologias aplicadas à agricultura para melhorar a vida das pessoas. Em paralelo, temos o desafio de preservar tais tecnologias e assegurar o seu uso por várias safras. Isso se torna possível com um bom planejamento técnico aliado às boas práticas agrícolas de manejo do sistema de produção.

No entanto, esse desafio requer comprometimento e envolvimento de todos que integram a cadeia do agronegócio, como por exemplo, universidades, entidades de pesquisas, entidades governamentais, órgãos federais e estaduais, empresas ligadas ao setor agrícola, e profissionais da área técnica.

Um dos maiores problemas fitossanitários que afetam a principal cultura agrícola do país, a soja, é a ferrugem asiática cujo agente causal é o fungo Phakopsora pachyrhizi. Tal doença já causou prejuízos inestimáveis no Brasil desde o ano de 2003, sobretudo nas principais regiões produtoras do cerrado e Sul.

Por se tratar de um fungo biotrófico, cujas características são alta variabilidade genética, rápida disseminação e difícil controle, toda e qualquer estratégia de manejo deve ser considerada como prioritária visto que os riscos envolvidos para a cadeia da soja no Brasil são elevados, com possibilidades de impacto direto na economia do país.

Dentre as principais estratégias de manejo estão o vazio sanitário, calendário de plantio e o controle químico. O primeiro foi criado com objetivo de reduzir fontes de inóculo da ferrugem na entressafra, por meio de eliminação de plantas guaxas (tigueras) e pela proibição de cultivo da soja num período de 90 dias. Os benefícios do vazio sanitário, são evidentes, embora não resolva o problema na sua integralidade.

Já o calendário de plantio com data limite por estado é outra importante ferramenta complementar no manejo, não permitindo o cultivo de soja em longas janelas de semeadura, o que reduz a “ponte verde” do inóculo no ambiente e contribui positivamente no manejo da doença.

Por último, o controle químico apresenta vários benefícios. Entretanto, o uso indiscriminado dos fungicidas ao logo nos anos aliado à habilidade do fungo em sofrer mutações genéticas, resultou numa perda de sensibilidade da Phakopsora pachyrhizi aos principais grupos químicos (carboxamidas, triazóis e estrobilurinas) utilizados no seu controle.

Por esta razão, a calendarização de plantio e o vazio sanitário devem ser respeitados com intuito de reduzir o número de gerações do fungo dentro e entre as safras, evitando epidemias da doença nos diferentes estados do Brasil. Do ponto de vista técnico-científico, quanto menor for a janela de semeadura, menor será a exposição da cultura da soja à ferrugem asiática.

A Fundação MT não corrobora com a portaria N° 264, de Setembro de 2018 da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (ADAPAR), sobretudo com os artigos 4°, 5° e 6° que permitem o cultivo extemporâneo da soja após 31 de Dezembro. Esta medida se adotada, pode vir a prejudicar o estado do Paraná e demais regiões do Brasil, inclusive o Mato Grosso uma vez que os esporos do fungo causador da ferrugem não respeitam fronteiras.

Do ponto de vista fitossanitário, os riscos são elevados para a cadeia da sojicultora. Os prejuízos poderão ser grandes e as perdas irreparáveis, além da maior exposição dos fungicidas à populações indesejáveis do fungo.

Reiteramos a importância de critérios técnico-científicos nas ações que envolvam e coloquem em xeque a principal commoditie do mercado brasileiro.

A Fundação MT toma esta iniciativa de se posicionar devido ao risco que a ferrugem asiática representa para o Estado do Mato Grosso e para o Brasil e entendemos que todos seremos responsáveis pelo que acontecerá no futuro próximo e distante.

A ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi) está entre as principais ameaças fitossanitárias listadas pelo Ministério da Agricultura devido aos seguintes fatores:

Segundo YORINORI (2013), entre 2002 e 2014, o Brasil teve perdas de mais de 10.000.000.000 U$ (10 bilhões de dólares) ocasionadas pela ferrugem asiática. Portanto, o elevado custo de controle aliado às perdas potencias colocam em risco toda uma cadeia produtora de soja, o que pode gerar consequências drásticas para um futuro próximo do ponto de vista econômico e fitossanitário.

No Brasil, a extensão da área tratada, o uso isolado ou em misturas de fungicidas sítio- específicos e o número elevado de aplicações numa mesma safra, confrontados com as estratégias antirresistência preconizadas pelo FRAC (2012) para evitar ou retardar o surgimento de linhagens resistentes, mostram o agravamento da redução da sensibilidade de Phakopsora pachyrhizi aos fungicidas.

Atualmente o agente causal da ferrugem (Phakopsora pachyrhizi) apresenta redução da sensibilidade aos três grupos químicos sítio-específicos utilizados em seu controle. Trata-se de um caso de resistência múltipla, pois um único fungo apresenta mutações aos fungicidas do grupo dos triazois (mutação Cyp 51), estrobilurinas (mutação F129L) e recentemente às carboxamidas (mutação na subunidade C da posição 186F).

Diante do exposto, a Fundação MT ressalta a importância da adoção de boas práticas agrícolas no manejo da ferrugem complementadas por estratégias antirresitência no uso dos fungicidas, o que vem de encontro às preconizadas pelo FRAC (Fungicide Resistance Action Committee).

Por se tratar de uma ameaça fitossanitária que apresenta alto risco e impacta diretamente na cadeia produtora de soja, é necessário a adoção de práticas de manejo integradas para amenizar estes riscos e ao mesmo tempo assegurar maior longevidade das tecnologias no campo e dos fungicidas utilizados em seu controle. Devido ao grande risco inerente deste patossistema, deve- se adotar o princípio da precaução em todas as épocas de cultivo de soja.

Dentre as estratégias de manejo ressalta-se a importância do plantio de soja na época recomendada, o respeito ao vazio sanitário, o uso de fungicidas efetivos de diferentes mecanismos de ação associados aos fungicidas multissitios (protetores) e a rotação de culturas no sistema.

Por se tratar de um patógeno biotrófico necessita da presença de plantas vivas no ambiente para iniciar a fase parasitária e completar seu ciclo vital. O vazio sanitário desde a sua implantação teve papel fundamental na redução de inóculo no período da entressafra e gerou bons resultados.

Aliado a ele, a Fundação MT entende que a época de semeadura no estado do Mato Grosso, permitida por lei, a partir de 15 de setembro até a data limite de 31 de dezembro, complementa o benefício do vazio sanitário pois evita uma longa janela de semeadura ao longo da safra.

Caso a janela de semeadura, hoje limitada a 31 de dezembro, seja estendida para janeiro e/ou fevereiro, podemos correr sérios riscos de intensificar o uso de fungicidas, aumentar a pressão de seleção sobre o fungo, colocar em risco as poucas opções de produtos para o controle da doença e aumentar a exposição dos fungicidas à uma população do fungo em alta fase de esporulação com a presença considerável de indivíduos menos sensíveis (mutantes) a eles. Isso ocorre porque no início da safra a população do fungo é baixa, aumentando gradativamente no decorrer da mesma. O uso de fungicidas sítio-específicos em todas as épocas de semeadura contribui para a seleção de populações do fungo de modo que os indivíduos mais adaptados permaneçam em constantes gerações no ambiente.

Independentemente do número de aplicações que se faça para manejar a ferrugem em janeiro e/ou fevereiro, certamente os fungicidas estarão sendo expostos a uma população do fungo muito mais agressiva e selecionada do que no início da safra de verão. Historicamente as lavouras semeadas no início da safra apresentam menor incidência da ferrugem e maior facilidade de manejo. Já as lavouras semeadas a partir da segunda quinzena de novembro adentram numa fase mais crítica do ponto de vista de controle, no qual a ferrugem historicamente apresenta rápida evolução e caráter epidêmico.

Considerando os riscos potenciais e a complexidade da doença, a Fundação MT entende que o plantio consecutivo de duas safras de soja, ou mesmo que apenas o plantio tardio (fevereiro), independente da cultura antecessora, favorece uma maior incidência da ferrugem sobre a cultura, estende a janela com soja no campo, intensifica o uso de fungicidas e aumenta a exposição dos produtos a populações do fungo menos sensíveis e compostas teoricamente por isolados mais virulentos. A consequência direta dessa prática seria a evolução de casos de resistência no campo e perdas de importantes moléculas num curto espaço de tempo.

Portanto a Fundação MT se posiciona tecnicamente contrária a alteração da data limite de semeadura no estado de Mato Grosso, que hoje vigora até 31 de dezembro.

A Fundação MT acredita que há necessidade contínua de discutir todos os assuntos que afetam a viabilidade econômica, social e ambiental da atividade agrícola do estado de Mato Grosso, no presente e no futuro distante.

É um assunto complexo e exige decisões/deliberações considerando exclusivamente base científica consistente, devendo-se eliminar desta discussão a experiência prática, interesses individuais ou imediatos. A ampliação da data limite representa risco muito alto ao Brasil, afinal há responsabilidade de todos envolvidos na cadeia da soja sobre as decisões tomadas.